De vez em quando volto. Parece ser uma fatalidade comum, todos sentimos aquela atracção do regresso como se as rizes nos prendessem ao solo em que nos plantaram como as árvores.
Porquê? O que é que nos faz voltar? Já escrevi aqui há meses que, após a morte dos parentes que lá ficaram nada me atraía àquele espaço.
Porém, estava redondamente enganado. Já não tenho parentes na minha aldeia, amigos propriamente nenhuns e poucas pessoas que lá vivem me conhecem ou se lembram se mim.
O que é existia que ainda exista? As referências. O rio, os caminhos, as cores, os cheiros, as árvores, sobretudo as árvores saltam à memória, desenterram os mortos, agitam-nos com se fôssemos sacudidos pelo vigor da infância, acarinhados pela inocência da nossa meninice.
Junto ao local onde nasci, junto ao caminho de lama, mesmo no topo norte do casal dos meus pais, onde a minha mãe nasceu, existia um velho carvalho. Dizia o meu avô que o tinha plantado quando era rapaz novo. Eu sou o mais novo de 5 irmãos, a minha mãe a mais nova de 4 irmãs, o meu pai o mais novo de 10 irmãos. Aquele carvalho tinha quase 2 séculos. Era enorme!
Era ali, à sombra daquele carvalho que se juntavam os poucos homens da pequena aldeia para conversar ou jogar uma partida de cartas. Era ali, debaixo do enorme carvalho que se acendia o tronco na noite de Natal.
Foi à sombra do velho carvalho que ouvi o meu avô contar as histórias das suas aventuras de quando era novo.
Foi ali, à sombra do velho carvalho que me ensinou o movimento da lua e das estrelas.
Foi ali, à sombra do velho carvalho que dei o meu primeiro beijo, sofri as primeiras paixonetas.
Foi ali, à sombra do velho carvalho que cresci e me fiz um homem.
O velho carvalho não está lá. A moderna estrada de asfalto arrancou o velho carvalho.
Na aldeia já não há Natal. Talvez haja dentro de algumas casas, mas o Natal da aldeia morreu, como morreu aquele carvalho, derrubado pelo modernismo.
Odiei as modernas estradas de asfalto.