Algumas mulheres onzeneiras espalhavam boatos, cochichavam da vida, dos fatos novos ou velhos que alguns vestiam, dos namoros apimentados das filhas das outras, das dívidas dos vizinhos, dos amantes das viúvas novas, ou das mesinhas da bruxa do Valado que, segundo diziam, eram mais eficazes contra a moléstia dos porcos e maus-olhados, do que a água-benta e as ladainhas do padre João, e a quem este fazia grande guerra, quer nas homilias dominicais quer através do confessionário, mas sem sucesso. As beatas cumpriam as ave-marias das penitências, acenavam com a cabeça prometendo ao Senhor Prior não voltar à bruxa, mas à saída da porta da igreja havia sempre mais um caso para contar: a cura de alguém que estava tolhido no reumático e ficara de andar ligeiro; a porca da vizinha, que recusava os bacorinhos e os amamentara logo que bebera a xaropada da bruxa; ou a solteirona encalhada que agora amarrara o vizinho, dono de umas territas, depois de lhe ter posto na soleira da porta uma cabeça de alho, um ramo de alecrim queimado e uma ponta de corno de cabra preta, junto com terra do cemitério, como mandara a bruxa, etc. etc.
As mulheres aproveitava-se aquele momento de ajuntamento que raramente acontecia, para “confidências” importantes destes géneros, como se fizesse parte do ritual pôr em público a vida e as desgraças de cada um, mas no “segredo” da sagrada procissão, porque todas aquelas conversas eram segredos. Os segredos da aldeia correm mais que o vento, sabe-se tudo, e quando não se sabe inventa-se.
trecho de " O Vale do Moinho" a publicar no próximo Outono