junho 13, 2007

Em dia de Santo António lembro-me sempre


As botas do Santo.


Quando era garoto, na minha aldeia, só eu e o Zezinho é que tínhamos botas. O Zezinho tinha tudo, era rico.
Eu tinha umas botas cardadas que pesavam muito. Quando ia para a escola e para a catequese não conseguia correr como os meus colegas descalços.
E quando brincávamos ao agarra-e-foge não conseguia competir. Isso deixava-me sempre ficar mal.
Então eu tirava as botas no caminho, e quando voltava calçava-me novamente
Um dia fui para a catequese e escondi as botas junto do ribeiro. Algum amiguinho meu, mas mais esperto do que eu, levou-me as botas.
Quando cheguei a casa, pensando que não me livrava duma tareia, inventei que tinha dado as botas ao Santo António que estava descalcinho.
O meu pai acenou com a cabeça com se tivesse acreditado e comprou-me outras botas (aquelas também já não eram novas)
Num dos domingos seguintes o meu pai também foi à missa. Eu só olhava para o chão encolhido nas minhas orações.
O meu pai tocou-me no braço, apontou para o Santo António e disse:
- Olha João, o Santo também perdeu as botas.


Publicado por João Norte em junho 13, 2007 12:48 PM | TrackBack
Comentários
eu gosto de trocas :) Afixado por: Inês Leitão em junho 13, 2007 10:02 PM
Oh amigo João, desde quando é que nós alguma vez conseguimos enganar os vossos queridos "velhotes". Olhe endossei-lhe uma pergunta sobre leitura de livros que também me foi passada. Um abraço do Raul Afixado por: insinuações em junho 13, 2007 11:33 PM
À Inês. Então manda para cá o teu livro e o teu endereço que eu mando-te " O Peso do Silêncio" É bonito -Diz que o leu. Afixado por: João Norte em junho 14, 2007 05:13 PM
A propósito de Santo António Muita gente se lembra daquela história do Santo andar a falar aos peixinhos... Pois já naquela época os homens acreditavam pouco e faziam orelhas moucas ao que os padres diziam apesar dos sermões terem sempre um fundo de interesse moralizador embora repetitivos. Santo António frustrado por não fazer passar a mensagem foi até ao Cais das Colunas e atirando pedaços de pão ao Tejo foi atraindo taínhas até o pão acabar. E, quando acabou a comidinha os peixinhos cheios de fome lá ficaram de cabeça para fora à espera de mais. Foi aí que o Santo aproveitou para lhes falar daquilo que os homens não quiseram ouvir: que era pecado maltratarem as mulheres,crianças e velhos, andarem a embebedarem-se, a fumarem droga (tabaco era droga naquele tempo), a meterem baixa quando não estavam doentes, a fugirem aos impostos, a não darem esmola ao pobre, etc., etc.,tudo o que faz parte dos mandamentos da Santa Igreja. Ele esteve mais de uma hora a falar e só parou quando notou que por detrás de si estava o povo em silêncio a escutar. Foi assim mais ou menos. Pois eu estava na esplanada ali mesmo ao lado do Cais Sodré a olhar o mesmo Tejo e reparei que um pedinte também falava e gesticulava em direcção ao velho rio. Ali na água as taínhas saltavam, davam piruetas sempre à espera de uma migalha. O homem falava na mesma e dizia mal da sua vida, de tudo e de todos. As taínhas continuavam a rodopiar cada vez em maior grupo. Atraído pelo vozeirão do homem uma senhora acompanhada de um rapazito de 12 anos ambos bem vestidos aproximou-se para observar e ignorando o magro pedinte reparou nos peixinhos e disse para o rapaz: filho vai alí à pastelaria e compra dois croissants. O pedinte ouviu e sorriu para a senhora e foi dizendo: Ah meu Santo Antoninho sempre estás a ouvir as minhas lamúrias...felizmente que conseguirei matar a fome hoje. Daí a pouco o rapaz regressou com os ditos bolos fresquinhos que entregou à mãe. Esta, segurou nos bolinhos e disse para o rapazinho: agora tu vais ver como os peixinhos vão lutar para abocanharem os pedaços que lhes vamos amandar. Afixado por: Alexandre Antunes em junho 15, 2007 07:53 PM
"amandar"??!! Alexandre.... Afixado por: eu em julho 25, 2007 01:23 AM
Comente esta entrada









Lembrar-me da sua informação pessoal?