Vou andar por aí
Como todos
Que ainda gozam do movimento
E enquanto puder usar o pensamento
Vou andar por aí.
Prós amigos e aqueles que o não são
Tentando pôr os pés no chão,
Vou andar por aí.
Insignificante centelha
Menor que o átomo que nada é,
Vou andar por aí.
Na busca de mim próprio,
No meio de fantasmas errantes,
Na densidade das noites vazias,
Vou andar por aí.
No deserto das insónias,
Na escuridão dos sonhos impenetráveis,
Vou andar por aí.
Nas rugas do tempo que marcam o rosto,
No sorriso das crianças que vi crescer,
Na palidez da noite,
Nas lágrimas dos que sofrem,
Entre as mãos estendidas dos mendigos,
Vou andar por aí.
Nas horas solitárias das multidões apressadas,
Na esperança dos que lutam,
Varrendo a poeira do tempo,
Patinhando manhãs de orvalhos inventados,
Vou andar por aí.
Nas paixões dos amantes,
Na paz dos inocentes,
Entre a gula dos ricos e soberbos,
Na vaidade dos convencidos,
Vou andar por aí.
Escutando o coreto de silêncios vazios
Da música que se foi,
Caminhando de ombros descaídos
neste entardecer da vida
espreitando a baía das marés,
no vai e vem dos desníveis oceânicos.
Vou andar por aí
No passo trôpego das pétalas caídas,
Na procura intrínseca da tranquilidade,
Na passagem esquiva do asfalto aquecido
Em nos verões longínquos,
Vou andar por aí
No adeus da tarde de Outono
Em marcha do tempo fugido,
Nos olhos cansados dos velhos,
No rir das crianças de futuro incerto
Vou andar por aí.
Sobre os esqueletos dos mortos
Dados como estrumo è terra
Que os criou,
Na glória incerta
das esperanças perdidas,
do suicídio colectivo das guerras travadas,
e nunca ganhas,
em nome dos deuses,
Vou andar por aí.
E mesmo depois que a morte me leve,
Em dia que nunca saberei,
Que apenas fique o meu nome,
Gravado na pedra fria,
Ou no coração daqueles que eu amei,
Vou andar por aí.
João Norte