Iniciei a minha actividade de professor em 1967, vários movimentos estudantis, repressão da PIDE, reforma Veiga Simão até 1974 e variadíssimas depois de 74. Os professores (eu próprio) lutaram por melhores condições; direito a sindicato, novos estatutos, progressão na carreira dependente da apresentação de provas públicas, vários modelos pedagógicos, etc. Sempre encarei o acto da aula com alegria. Nunca houve nas escolas o ambiente que se vive hoje.
Estou aposentado apenas há 4 anos. Por várias razões, vou com alguma frequência às escolas (a minha mulher continua no activo e tenho uma filha ainda a frequentar a escola), continuo a ver nos colegas amigos com quem trabalhei e a sentir-me professor. Porém, o ambiente é de tal ordem que vou deixar de aparecer. Os professores estão completamente confusos, vêem nos colegas que saíram privilegiados, (ainda que tenham ultrapassado em muito os 60 anos), os colegas que ocupam cargos são inimigos e os conselhos executivos são odiados porque são vistos como representantes do ministério.
Ninguém conversa calmamente. Os professores que esperam na sala a hipótese de terem de substituir algum colega que falte parecem condenados.
A sala de aula, que devia ser um espaço de transmissão de conhecimentos e aprendizagem, é um ringue de luta.
Os professores vão para a aula com o mesmo espírito com que iam os condenados para a arena romana, para a luta com as feras e sem armas. É o “salve-se quem puder”.